Com mais de cem anos de idade, São Francisco Xavier ainda conserva muitas de suas tradições em festas religiosas e manifestações folclóricas, como a catira e o moçambique.

Centro Cultural
Praça Cônego Antônio Manzi , 77
Fone: (12) 3926-1123

Escrito pelo Sr. João de Oliveira Batista e cedido pela Sra. Deize Maia

    Foi construído em 1919 pelo imigrante italiano Sr. Ernesto Manzi, que chegou ao Brasil em 1901, acompanhado dos irmãos Pe. Antonio Manzi e Gaetano Manzi.

    Como pedreiro e mestre de obras foi contratado, o também italiano, Sr. Baptista Roncalli (primo do Pe. Ângelo Giusepe Roncalli que foi eleito Papa João XXIII em 1958).

    O estilo escolhido pelo Sr. Ernesto para a fachada principal foi o romano, que tem como principais detalhes as cimalhas e as platibandas. Havia também um alpendre em madeira. Todo o material empregado na construção teve origem nas imediações da vila.

    Os tijolos e as telhas saíram da olaria do Ezequiel Alves. As madeiras de lei foram tiradas das abundantes matas da região.

    As telhas comuns e o alpendre de madeira foram substituídos em 1951 por Benedito Alves Batista, quando houve uma reforma geral no chalé.

    Nos anos 70, quando era proprietário do Sr. Eduardo Bernini, houve uma nova reforma comandada pelo Sr. Adelino Maia que mudou algumas características originais: os vasos laterais e o abacaxi do centro da cimalha foram removidos. Da mesma forma, os cachos de uva e a inscrição "1919" da parte central da parede frontal foram removidos.

    O velho chalé, em seus oitenta e três anos de existência, recebeu visitas ilustres, entre elas: Bispos Diocesanos, Padres, Professores, Políticos e várias personalidades.

    Durante a segunda guerra mundial serviu como centro de distribuição de produtos racionados e como ambulatório médico. Foi Sub-prefeitura, Correio, Farmácia, Pensão, Gabinete Dentário e serviu também para outras atividades.

    No chalé nasceram várias pessoas, mas também algumas morreram. Dentre os que nela nasceram, destacamos Caetano Manzi Sobrinho (o Caetaninho) que foi vereador em São José dos Campos, prefeito eleito em Monteiro Lobato por dois mandatos e Coletor Estadual na cidade de Santa Rita do Passa Quatro.

    O progresso da vila foi testemunhado por sua casa mais importante, que sempre foi o ponto de referênia por longas décadas. Nela foram realizados bailes, festas, casamentos que a princípio eram iluminados pelos lampiões petromax. A luz elétrica chegou ao fim da década de 1940, quando a usina de geração de energia ficava no quintal da casa do Nico Alves. Depois fizeram uma nova usina na propriedade do Mariano Batista.

    Nos anos 50 chegaram a água encanada com a rede de esgoto, os caminhões leiteiros e depois os ônibus que trafegavam em precárias condições.

    No final da década de 1990, seu novo proprietário, Joaquim Maia, realizou uma grande restauração, ampliando e reestilizando todo o conjunto arquitetônico.

    Hoje o chalé está novo e formoso e, como sempre, continua recebendo pessoas importantes e amigos da sociedade Franciscana.

    Com certeza, o velho chalé do Sr. Ernesto Manzi e de outros tantos que por ele passaram sobreviverá ao tempo e, brevemente será centenário.

    Foram proprietários: Ernesto Manzi, João Batista, Benetito Alves Batista, José Alves de Morais, Eduardo Bernini, Maurício, Edson César da Costa e atualmente (2002): Joaquim Vieira Maia.

 

Por Inge Schloemp

    O Dia da Carpição é uma manifestação de catolicismo popular não reconhecida pela Igreja Católica, em que os populares procuram curar seus males carregando um punhado de terra.

    O costume é muito antigo e conta o Padre Milton que antigamente vinham romarias de longe para cumprir suas promessas e fazer os pedidos. Hoje a média de fiéis é de 500 pessoas.

    Originalmente, o poder da cura pela terra era utilizado pelas pessoas, segurando um pouco de terra bruta com as mãos sobre a parte do corpo que estava enferma. A pessoa andava uma distância muito maior que hoje, mas dizem que se curava. Alguns chegavam a agradecer graças alcançadas pelos seus animais, trazendo-os para carregar um pouco de terra também. Hoje em dia, as pessoas já cumprem o ritual mais como uma demonstração de fé religiosa, passando por penitência e sacrifício, para cumprir suas promessas feitas a Nossa Senhora dos Remédios.

     Numa demonstração de fé, o ritual consiste em ir ao Bairro dos Remédios, próximo à Capela de Nossa Senhora dos Remédios, no dia 15 de agosto (ou primeira segunda-feira de agosto, como opção), carregar um lenço ou uma pequena sacola com terra (antigamente se limpava um terreno próximo, tirando o mato = carpir) por cerca de 100 metros, ainda colocado sobre a parte enferma do corpo, e por 3 viagens, levar a terra até os pés do cruzeiro na frente da capela e despeja-la no local. Durante o percurso rezam aves-marias, pais-nossos, terços e outras orações populares. Essa rotina segue por todo o dia, sem horário fixo, até mesmo à noite. Depois da caminhada, o fiel vai à capela e reza um terço.

    Este costume que vem sendo passado de pais para filhos a pelo menos 3 gerações. Alguns moradores mais antigos, seguem o ritual mesmo sem ter promessa para pagar, por pura gratidão. Há também alguns que pagam promessa pelos que não puderam comparecer.

    Para fins de evangelização, o Pároco do Distrito, Padre Milton Faria, comemora uma missa para os presentes no dia oficial às 15:00. Esta missa é uma novidade introduzida recentemente e não faz parte do ritual.

    Não acontece nenhum tipo de comemoração, festa ou música. É um dia solene.

 

Por Inge Schloemp

    Podemos dizer que a passagem dos romeiros pelo Distrito de São Francisco Xavier é o último testemunho da destemida tradição das viagens dos tropeiros que iam e vinham pelas trilhas das montanhas da Serra da Mantiqueira, trazendo e levando mercadorias de Minas Gerais a São José dos Campos, em São Paulo.

    Hoje os viajantes já não vêm mais de Minas Gerais. Eles vêm do norte do estado de São Paulo e se dirigem para a cidade de Aparecida (SP), para mostrar sua fé a Nossa Senhora Aparecida, na grande Basílica. A tradição de tirar uma foto de lembrança na frente da fachada continua, porém com câmeras mais modernas, não mais com as máquinas lambe-lambe.

    O trajeto que muitas vezes leva dias (40 a 60 km por dia a cavalo ou de charrete), da origem até o final, também já não é mais tão sofrido. Os romeiros já não precisam mais dormir ao relento e cozinhar ao ar livre. Agora eles encontram a hospitalidade de fazendeiros e sitiantes e por vezes até se hospedam em pousadas. Os animais têm alimentação garantida e um piquete onde podem descansar nas paradas. Alguns, porém, ainda fazem todo o percurso de ida e volta a cavalo.

     A fé continua a mesma. Muitos rezam na saída, ao longo do caminho (alguns levam um oratório e uma imagem) e todos vão à missa no final da viagem. Pagam promessas e fazem novos pedidos. Dos que por aqui passam, podemos ouvir sempre histórias de vida e morte, de graças alcançadas, de testemunhos de fé e acima de tudo, de lições de companheirismo dos colegas de viagem.

    As romarias predominam de Junho a Setembro, mas a época em que recebemos mais romeiros é Julho (até 5 grupos num dia), que além de ser época de férias para muitos, é no inverno que a temperatura é mais amena e os animais cansam menos. Os grupos geralmente são formados por pessoas que se conhecem e para fazer parte, é preciso uma indicação. O número de pessoas pode variar muito. Desde 6 cavaleiros até mais de 30. Algumas vezes, os cavaleiros trazem suas famílias. Os grupos em sua maioria contam sempre com os mesmos participantes ou pelo menos um que já conhece o caminho e os guia durante o percurso. Essa pessoa mais responsável cuida de reunir o dinheiro para pagar as despesas e manter a ordem entre os cavaleiros.

    Os preparativos começam cerca de três semanas antes (levando-se em conta que os grupos já estão saindo todos os anos na mesma época há muito tempo), quando os líderes do grupo percorrem o caminho de carro, reservando as paradas (a maioria dos locais não tem telefone ainda). Algumas vezes eles reúnem o dinheiro dos participantes, mas muitas vezes, principalmente em grupos menores, cada um dá sua participação no local. Os alimentos não perecíveis (arroz, feijão, açúcar, macarrão, farinha, etc) e medicamentos são comprados na saída e os perecíveis (leite, carne, verduras e frutas) são compradas nos mercados ao longo do caminho, conforme a necessidade. O que dá, eles guardam em geladeira de isopor.

    Durante a viagem, eles contam com alguns veículos motorizados para dar apoio à tropa. Ônibus, quando vão acompanhados da família, caminhão boiadeiro, que serve para carregar a cozinha, os mantimentos, o fogão e as bagagens, e às vezes algum outro caminhão boiadeiro para trazer os animais de reserva. Tudo é claro, é organizado de acordo com o tamanho e as possibilidades do grupo. Muitas vezes, cada cavaleiro vai puxando um animal (cavalo ou mula) de reserva, para ir alternando durante a viagem. É difícil ver mulheres entre os cavaleiros. Monta quem pode e quem quer. Tamanha é a vontade de fazer a viagem, que quem não tem cavalo ou mula própria, pede emprestado. Muitos acabam comprando depois, para poder seguir a tradição anual.

    Mas o que vale é chegar em Aparecida. Eles vão viajando, parando, trazendo histórias e alegria. Como os tropeiros. Enfrentam perigos de assaltos nessas estradas modernas que testam a resistência humana e dos animais, sujeitos à provação de estarem longe do lar e em condições, apesar de tudo, tão rústicas.

    A hospedagem por aqui é feita em quarto simples, onde se espalham pelo chão os colchões trazidos de casa. Por vezes todos dormem juntos, outras vezes mulheres separadas dos homens. Quando não cabem nos quartos, eles se acomodam onde podem, em barracas ou sob as varandas.

    A comida é feita por membros do grupo (às vezes trazem um cozinheiro experiente), mas todos participam de limpar a sujeira, para que a partida depois do almoço não se atrase. Nas refeições comem comida simples: geralmente feijão, arroz, macarrão e churrasco e bebem refrigerante. No café da manhã, tomam café com leite e pão com manteiga. Bebidas alcoólicas com moderação, porque os companheiros não gostam de desordem, muito menos os anfitriões. Alguns grupos de romeiros ainda cozinham na estrada, e desavisados, acabam usando a água poluída do Rio do Peixe.

    Os carros chegam primeiro e saem por último, organizando a chegada e deixando tudo arrumado na saída do pouso.

    Antes de chegar aqui, na véspera eles pousam em Joanópolis e no dia seguinte pousam em Monteiro Lobato. Aqui em São Francisco Xavier existem duas pousadas especializadas em receber romeiros.

    A mais antiga é o Sítio Barreiro (fone 3926-1132), propriedade do Sr Sebastião (Tiãozão) e tocado com a ajuda de sua mulher, Dona Nadir e fica perto do Centro. O sítio já é passagem de romeiros, tropeiros e boiadeiros desde a época de seu avô, em 1876, e seu pai comprou a fazenda em 1922. Para manter a tradição, "Seu" Tiãozão continua recebendo os viajantes, que às vezes chegam à pé, e cobra uma taxa reduzida para cobrir os custos de água e luz. Em sua casa simples ele recebe grupos em média de 15 pessoas, mas tem capacidade de receber no quarto até 40. Os que sobram se espalham pelas áreas externas. Ele conta que os grupos que vieram de mais longe, foram de Araras e Avaré e recomenda que se façam reservas com antecedência.

    A outra pousada, que funciona há apenas 2 anos também é bem simples e tem capacidade para 30 romeiros divididos em 2 quartos e 50 cavalos. A Pousada do Pedrão (fone 3931-4143), é propriedade do Sr. Zé Pedro, que sempre gostou de romarias e fica na entrada do Bairro Cafundó. Funciona apenas nos finais de semana. Um dia, diz ele, vai morar no sítio a semana toda para poder receber romeiros todos os dias. Por enquanto, além de hospedar, ele recebe grupos que apenas preparam o almoço e depois partem.

    Havia tempos em que uma outra fazenda entre as duas, a Fazenda Cateto, também recebia romeiros.

     Conversando com os viajantes, vemos que cada um tem seu ritmo de viagem. Alguns, como já foi dito, vêm com oratório e imagem de Nossa Senhora, orando a cada parada e outros viajam de maneira um pouco mais "soft", procurando chegar ao final da jornada aproveitando a companhia, a paisagem e o contato com a natureza e os animais.

    Entre os vários visitantes, conversamos com dois grupos. Um deles veio de Nazaré Paulista. O Sr. Mário Benedito Pinheiro, ou Marinho Peró, veio trazendo um grupo de 36 pessoas (25 cavaleiros), muitos com suas famílias e com 3 animais de reserva. Eles fariam o percurso devagar e passeando, chegando em Aparecida em 5 dias, de maneira a não cansar os participantes e os animais. Quando chegassem em Aparecida, todos iriam à missa e os que precisassem trabalhar logo voltariam sozinhos, de ônibus. Os que pudessem, ficariam mais um pouco na cidade. O grupo tinha pessoas de 3 a 78 anos e ele já fazia o percurso há 14 anos. Originalmente seu grupo chegou a ter 300 pessoas, mas devido a dificultades de lida com as pessoas e hospedagem, eles se separaram em 8 partes, sendo um deles o que é liderado por ele hoje. Como apoio veio 1 ônibus, 1 caminhão boiadeiro grande e 2 caminhonetes. O alimento que prefere dar para os animais (a maioria veio montando mulas) é água fresca, um pouco de ração e capim picado, para evitar cólicas causadas por uso exclusivo de ração. Quem organizou o grupo e o percurso foi o Sr José Benedito Pereira Neto (Peró). Ele disse que antigamente ele fazia a viagem por promessa, mas agora é mais por lazer e que não sente obrigação em fazer a jornada, mas o passeio já é tradição de família e dos amigos. Hoje, além de viajar nas mulas, eles procuram divulgar a tradição dos tropeiros com a Comitiva Quatro Cantos e a criação destes resistentes animais em Nazaré Paulista, desfilando trajados a rigor em festas e eventos típicos onde forem convidados. Para entrar em contato com eles, basta enviar um e-mail para mario@osite.com.br .

    O outro grupo partiu de Joanópolis. Os integrantes vieram de cidades como Jundiaí e Itatiba e se reuniram na Pedra do Carmo para iniciar a jornada. Eram 12 cavaleiros, de várias classes sociais (ferreiro, comerciante, criador, projetista, etc) e um cozinheiro que dirijia o caminhãozinho boiadeiro de apoio com a cozinha e as bagagens. As idades variavam de 14 a 54 anos. Iraí, o mais antigo do grupo, já fazia o percurso desde 1983, para pagar uma promessa pela cura de um acidente com cavalo. Os outros faziam a viagem por motivos mais divesos, entre passeio e promessa (geralmente confidencial). Na partida, em Joanópolis os romeiros fizeram uma oração a Nossa Senhora Aparecida e se puseram a caminho numa quarta-feira de manhã, com previsão de terminar na sexta pela tarde. Quando chegassem à Aparecida eles tirariam a foto, iriam ao hotel e à missa e depois a um baile, se houvesse. No domingo voltariam para casa de ônibus. O cozinheiro do grupo, Sr. Aparecido Augusto Godo ou Cido é devoto desde o nascimento. Ele contou que seu nascimento foi muito difícil e sua mãe pediu a Nossa Senhora Aparecida que tudo corresse bem. Quando ele nasceu, Nossa Senhora ficou sendo sua madrinha de batismo. Ele acompanha esse grupo desde 1985, dirigindo o caminhão boiadeiro, fazendo compras e cozinhando nas paradas. Ele gosta de fazer um cardápio variado (arroz, feijão,torresmo, frango, mocotó e churrasco), mas o café da manhã é simples (café, leite, pão, manteiga, queijo e mortadela). Um grupo de romeiros de Jundiaí de médicos provou da comida dele e agora sempre o chamam. Esse grupo veio também com 2 charretes, que acompanham os cavaleiros e são mais confortáveis. Numa delas haviam suprimentos de emergência. Os cavaleiros levam na sela apenas uma capa e bebida. O maior perigo que passam no caminho, conta Iraí, são os assaltos, a partir de Pindamonhangaba.

    Nos dois casos, os animais seriam levados pelo caminhão boiadeiro de volta para suas cidades de origem no mesmo dia da chegada, pois as instalações em Aparecida são muito caras e precárias.

 

Jorge Serão

Vai nosso tropeiro,
Viajando na estrada poeirenta.
Pra ganhar o vosso dinheiro,
Trabalhando a vida sustenta.

Transportando a nossa riqueza
O tropeiro não pára na lida.
Doze burro fungando na ida,
Mas a volta é uma beleza.

Vejam todos agora o que é
Muitas curvas ele vai conhecer
Carregando feijão e café,
Pra cidade se abastecer.

Todas as pontes daquele estradão,
Essa tropa até já conhece.
Levantando poeira no chão,
Bem na hora que o dia amanhecer.

Ao voltar para o grande sertão
Quando cai uma chuvinha fina,
Deixa inquieto um tal redomão.
É uma besta pro nome neblina.

O tropeiro também tem família:
O Nequinho e o João Tutuia.
Escutando o sininho do guia,
Todos correm batendo uma cuia.

Que alegria o tropeiro tem,
Encontrando a esposa feliz.
Ela admira a besta Perdiz
Tocando o sininho blem-blem.

Blem-blem
Blem-blem
Blem-blem
Blem-blem