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17/03/2004 - Família
se isola em bairro de S. José
Grupo de 40 pessoas vive
em comunidade quase 'ilhada' da civilização
no distrito de São Francisco Xavier
Por Patrícia Ferreira
Miguel é pai de Maria que
é casada com o primo Salvador e sobrinha de dona
Luzia, que é irmã da mãe de José
que é casado com a sobrinha do avô dele,
Leopoldina, que por sua vez é irmã da
mãe de Maria, filha de Miguel.
Confuso? Não para essa família
de 40 pessoas, que vive há decadas isolada do
mundo em plena São José dos Campos, no
alto de uma ribanceira no distrito de São Francisco
Xavier --o bairro dos Martins, sobrenome de todos os
integrantes da comunidade, todos negros.
O lugarejo tem 10 casas, erguidas
da década de 30. A família Martins veio
da comunidade negra chamada 'Serra dos Crioulos', que
fica na cidade de Gonçalves (MG).
No início vieram duas famílias
que compraram as terras e depois chegaram mais alguns
membros.
Luzia Martins Almeida, 78 anos, disse
que veio da 'Serra dos Crioulos' quando era criança
e cresceu vendo a comunidade se expandir entre os parentes.
Ela disse que as casas eram construídas de pau-a-pique,
revestidas com barro, e há pouco tempo, foram
desmanchadas e feitas de alvenaria.
Luzia lembra que teve uma época
em que havia muitas famílias ali, mas com o tempo,
ela também viu os parentes morrerem ou irem embora
e a comunidade diminuir.
Ela contou que muitos da nova geração
resolveram ir embora, morar na cidade. Maria Donizete
Martins disse que quem ficou na comunidade acabou se
casando com primos.
Ela se casou com o primo Salvador
Martins de Almeida. "Minha mãe é
irmã de Leopoldina, que é marido do irmão
do meu marido", disse.
O casal tem 6 filhos e dois netos,
cujos pais são da mesma família. Nivaldo
Donizete de Almeida, 18 anos, um dos filhos de Maria,
disse que não pretende se casar com uma parente
da comunidade, mas não costuma ir para a cidade
para fazer amigos.
A pequena Renata Aparecida da Conceição
Martins de Almeida, 6 anos, vive encantada com as imagens
da televisão de sua casa, que mostra um mundo
que ainda é muito diferente do mundo dela. Enquanto
Maria cuida da casa e dos filhos, Salvador trabalha
como roçador de pasto em uma fazenda da região.
A família também planta
feijão e milho. O pai de Maria Donizete, Miguel
Inácio da Silva, 72 anos, vive sozinho desde
que perdeu a mulher, que era sua prima.
Miguel não tem o mesmo sobrenome,
mas também pertence à família dos
Martins. Ele ainda trabalha na roça, plantando
milho, café e feijão.
SERRA- O prefeito de Gonçalves (MG),
José Francisco Neto, disse que membros da comunidade
negra 'Serra dos Crioulos' existem até hoje na
região, mas há apenas cerca de cinco famílias
e o bairro já mudou de nome --hoje se chama Mundo
Novo.
Segundo o prefeito, com o tempo os
membros da comunidade se misturaram com os brancos,
muitos já morreram e o grupo foi quase extinto.
Ele não conhece a origem dessas
pessoas, "provavelmente são descendentes
de escravos". Quanto à cultura, os negros
deixaram a herança da dança que existe
até hoje na região. "Temos aqui o
grupo de congada, em que as pessoas dançam com
cabos de madeira. É uma herança africana."
ANÁLISE- O sociólogo
Nélson Pesciotta, de Lorena, disse que a tendência
deste tipo de comunidade é se extinguir. Segundo
ele, este já foi um problema da vida rural. "Grupos
pequenos ficavam abandonados, mas hoje, em núcleos
urbanos como São José dos Campos, o contato
com a cidade elimina o isolamento."
Pesciotta disse que há grupos
em que a língua e os costumes são diferentes,
mas esta comunidade de São Francisco, onde surge
esta nova geração que convive com a sociedade,
com o tempo deve desaparecer.
Fonte: http://jornal.valeparaibano.com.br/2004/03/14/sjc/marti1.html
'Matriarca' do bairro tem 81 anos
A mulher mais velha da comunidade é Leopoldina
Martins de Almeida, com 81 anos de idade. Ela contou
que ajudou a mãe a criar os sete irmãos
e por isso acabou optando por não se casar e
nem ter filhos quando jovem. "Gostaria de ter nascido
homem porque teria mais força para trabalhar."
Aos 55 anos de idade ela resolveu se casar com seu primo,
que vive com ela até hoje, José Martins
de Almeida, que é 26 anos mais jovem que ela.
"Vi meu marido nascer e ser criado aqui pela minha
prima."
Fonte: http://jornal.valeparaibano.com.br/2004/03/14/sjc/marti2.html
Fora do Mapa
O bairro dos Martins fica a 9 quilômetros do
centro de São Francisco Xavier. Para se chegar
até lá deve-se seguir pela estrada de
terra, chamada Ezequiel Alves Graciano que vai para
a cidade de Joanópolis (SP). Após 6 quilômetros
do início da estrada, o caminho é entrar
à direita e subir mais 3 quilômetros. No
último quilômetro para chegar ao bairro,
a estrada é escorregadia e não possui
cascalhos. Nesta época de verão, as chuvas
são contínuas na região e acabam
ocorrendo também quedas de barreira, pelo deslizamento
de terras. A falta de cascalho chegando à comunidade
não deixa que carros de passeio cheguem até
lá.
A equipe de reportagem do ValeParaibano deixou o carro
no caminho e teve que seguir a pé. O problema
é maior quando no período da tarde surgem
animais como bois e vacas que ficam soltos pelo local,
danificando ainda mais a pista.
Fonte: http://jornal.valeparaibano.com.br/2004/03/14/sjc/marti4.html
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